Por: Honório Laucidio Galvão: é pedagogo, físico, pesquisador e escritor
A GÊNESE E O DESENVOLVIMENTO DA FOFOCA EM LIVRAMENTO
De acordo com a definição do dicionário on line wikepedia, a enciclopédia livre:
A fofoca consiste no ato de fazer afirmações não baseadas em fatos concretos, especulando em relação à vida alheia.
Presente ao longo de toda a história, tal ato é frequentemente ligado à imagem das mulheres.
O historiador Bernard Capp, da Univesidade de Warwick, no Reino Unido, afirma que “a rainha inglesa Elizabeth I, por exemplo, foi intenso alvo de fofocas entre 1560 e 1570. (...) Ela tem um caso? Está grávida? Teve um filho ilegítimo? Boatos assim eram muito comuns entre os ingleses”. [1]
Embora associado a um hábito feminino, estatisticamente os homens são mais fofoqueiros. A Social Issus Research Centre um centro de pesquisas independente de Londres, entrevistou 1.000 donos de telefones celulares com o intuito de saber qual era o teor das conversas. Destes, 33% dos homens eram fofoqueiros habituais, contra apenas 26% das mulheres. O que muda, entre a fofoca masculina e a feminina, é o teor da conversa: geralmente os homens fofocam sobre o ambiente de trabalho, gafes de colegas e principalmente sobre mulheres. Também vale ressaltar as razões que levam a fofoca: as mulheres, em geral, é uma maneira de passar o tempo enquanto para os homens pode servir, além de pura informação, como meio de auto-afirmação perante o resto dos amigos e colegas ( quando este, por exemplo, gaba-se de ter saído com um bela mulher).
A FOFOCA NA HISTÓRIA: VOCÊ SABIA DA ÚLTIMA?
Um dos fenômenos sociais mais populares há séculos, fofoca já interferiu nos rumos da história e, bem contada e devidamente espalhada, chegou até a (quase) se transformar em verdade absoluta.
(Èrica Montenegro e Cláudio de Castro Lima)
Falar da vida alheia é um hábito do tempo das cavernas. Segundo Frank Mc Andrew, especialista em fofoca da universidade norte-americana knox College, ela ajudou na evolução humana. “Para obter sucesso nos grupos sociais, os homens pré-históricos tinham que saber sobre a vida das outras pessoas e o que elas sabiam fazer”, afirma. Para ele, quem tinha mais informação conhecia as fraquezas dos adversários e sabia tirar vantagem disso.
Se espalhar boatos sobre os outros é habito antigo, foi só a cerca de anos que especialistas como historiadores e antropólogos resolveram estudar o que pode haver por trás da fofoca. Para muitos deles, historia inventadas meias-verdades dizem bastante sobre os medos, desejos e preconceito de quem os espalha. Outros defendem que as historias difamadoras funcionam como uma força conservadora, esclarecendo que tipo de estrutura social e que normas de conduta devem ser seguidas para não cair na boca do povo.
Fofocas sobre quem esta no poder sempre foram popular. “É uma maneira de ver os poderosos despidos”, diz o psiquiatra José Ângelo Gaiarsa, autor de Tratado Geral sobre a Fofoca. “A fofoca é um importante veiculo de controle social, por isso não pode ser desprezada”, afirma.
A historia mostra que são comum também os casos de mentiras que não são desmentidas- ao contrario são muitas vezes reforçadas – por motivos políticos. Na Itália de Mussolini, por exemplo, simpatizantes e adversários do ditador concordavam pelo menos em uma coisa: ele havia recuperado o sistema de transporte ferroviário do país. Alem símbolo da eficácia do fascismo, a pontualidade dos trens virou orgulho nacional. Só que, na verdade, os trens começaram a ser recuperados antes de Mussolini chegar ao poder, em 1922. E ele pegou carona em uma realização que não era dele.
A fofoca no Município de Livramento
A fofoca sempre esteve ligada a imagem das mulheres e dos homens desocupados.
Ela foi um meio de comunicação bastante usado não só para instruir, colocar as pessoas a par das coisas, mas também para destruir, quando é de mau gosto e intencional. Como exemplo teve em Livramento os famosos “Pasquins”, Jornaizinhos rústicos, feito artesanalmente que tinham por objeto delatar, difamar, ou seja, trazer ao conhecimento da sociedade fatos, boatos, inverdades e bisbilhotices acerca de alguém.
Os pasquins eram colocados e/ou entrouxados nas “Judas” (bonecos feitos de pano e recheados de ramo de são Caetano e outras ervas) por ocasião da sexta-feira santa e rasgada/ malhada no sábado de aleluia.
Os textos dos pasquins ao serem lidos expunham a intimidade das pessoas, geralmente aquelas tidas como homens e mulheres de bem, “os politicamente corretos”, que vivem conforme os padrões morais e éticos vigentes.
As pessoas que os escreviam ficavam no anonimato, pois se disfarçavam escrevendo algumas coisas delas mesma.
Certa vez, isso na década de 80, numa conversa com Vicente de Assunção, conhecido popularmente como “Vicentinho”, um negro, filho de escravos que morreu aos 125 anos de idade, ele dissera-me que a “fofoca” em Livramento teria nascida na rua da mataria, alcançada a rua do sabão, rua do tanque, rua do retiro, rua de cima e daí rumado para a morraria e ao baixo pantanal (pirizal). Mas há quem diga que foi o inverso, ela teria nascido na zona rural e migrado para a vila do livramento.
Verdade ou mentira, o certo que entre nós existem exímios fofoqueiros em diversos estágios e níveis. Têm os graduados, os especialistas, os mestres, os doutores e os PhDs.
“Como diz o adágio popular: “mente desocupada é oficina do diabo” e, “quem conta um conto aumenta um ponto”“.
Geo-historicamente Livramento assim como os demais povoados e vilas de Mato Grosso ficou isolado do centro político administrativo e cultural do país por mais de 200 anos. Talvez esse isolamento tenha contribuido para que desenvolvessem sua criatividade, fazendo conjecturas sobre fatos e coisas muitas das vezes fantasiosas.
Existem pessoas na cidade que não convém revelar o nome ate para poupar-lhe a identidade que diz o seguinte na hora de contar uma fofoca:
“Olha, é isso mesmo que lhe contei; agora, se você contar para alguém, eu nego tudo, hein”?...
É publico e notório que em Livramento, quando uma pessoa emagrece ou engorda subitamente, ou está com AIDS, abortou ou engravidou-se, no caso das mulheres. Difícil acreditar, mas é verdade.
E vai alem, quando alguém cospe, tropeça ou vai para UTI, isso dito na rua de cima, quando a informação chega à praça da matriz ela chega totalmente distorcida, pois a que cospiu, vomitou; o que tropeçou, caiu e a que tava na U.T.I, morreu.
O pior de tudo é que na hora de recontar à fofoca as pessoas dão vida, realismo como se dela tivessem participado.
É impressionante a imaginação criadora da certas pessoas nessa arte.
No caso especifico de Livramento, em épocas de eleição, é comum entrarem em cena os “marqueteiros da destruição”; pessoas contratadas por políticos para difamar seus oponentes e/ou desafetos. Estes se sentam nas praças, ponto de táxi, nos bares, cassinos e beira do campo de futebol para propagarem as mentiras que professam ou que ouviram de alguém.
Antigamente as fofocas eram repassadas boca-a-boca, janela-a-janela, pois os casarios antigos possuíam paredes geminadas o que favorecia a escuta de segredos e brigas de vizinhos e de família.
Depois foram as praças os locais, para onde as pessoas se dirigiam para namorar, brincar e, é claro, fofocar; transformar boatos em fatos.
Com aparecimento da radio em Mato Grosso, em 1939, os papa-bananas passaram a se preocupar um pouco com os noticiários de guerra (1945), política, economia e sociedade, informações essa que fizeram com que elas freassem um pouco mais a pratica do “fuxico”, que é o termo usado para fofoca.
A partir de 1953, com o advento do telefone, ai sim, a fofoca ganha velocidade máxima, pois de agora em diante os fofoqueiros de plantão não precisam mais sair de casa para ficar sabendo das coisas e reconta-las.
Com a inauguração da TV em Mato Grosso em 1969, houve um aprimoramento das técnicas de “fofocagem”, pois podiam através de som e imagens fazer criações mais sofisticadas e melhorar o seu repertorio.
Na década de 90, com a implementação de novas tecnologias (orkut,msn, you tube, twistter, e-mail, sites, etc.) a fofoca ficou mais democrática e mais veloz. Em Livramento as Lan House vivem cheias de pessoas fazendo pesquisas e também fofocando.
Mas uma coisa é certa, minha gente, o fuxico, a fofoca, a conversa fiada não é algo novo nem tão pouco criado em Livramento ela esta presente em toda a baixada cuiabana. Ela não tem pátria, cor, sexo, raça ou religião, ela não é uma instituição nossa de Livramento. Ela é do Estado de Mato Grosso, dos “paus-rodados”, do Brasil, ou melhor, do mundo inteiro.
Minha gente acorda! A fofoca é universal porque faz parte da alma humana. Salve a fofoca!
Abaixo os fofoqueiros!
Sites: http. //pt. wikipedia.org/wiki/fofoca
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Honório Laucidio Galvão: é pedagogo, físico, pesquisador e escritor
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